Análise da última temporada e as tendências do setor no mundo
por: Bernardo Porfirio

O terceiro boom da indústria de cruzeiro no mundo (o primeiro foi com o seriado de TV “Barco do Amor”, nos anos 1970, e o segundo com os meganavios, no final dos anos 1980) surgiu em conseqüência do atentado terrorista de 11 de setembro em Nova York, período em que os norte-americanos – o maior consumidor de cruzeiros no mundo – passaram a voar menos de avião, em função da expectativa criada quanto a um possível novo ataque. Isso fez dos cruzeiros marítimos a única e a mais segura maneira dos estadunidenses viajar e desfrutar as férias.
O resultado dessa nova demanda promoveu inúmeros pedidos, construções e lançamentos de navios-cruzeiros. Tal movimento e incremento do número de passageiros saturou o mercado caribenho de tal maneira, que, hoje, destinos como América do Sul e Ásia são vistos pelas companhias como solução para o envio de seus navios, principalmente nos períodos de baixa temporada européia e norte-americana.
A indústria de cruzeiros, atualmente, navega às escuras; no oscilar da onda da crise econômica norte-americana, com o dólar desvalorizado em todo o mundo, somando-se à crise do petróleo, mais as embarcações sendo construídas em euro e os cruzeiros vendidos em dólar. Esses foram os principais temas abordados no Seatrade Cruise Shipping Convention, realizado pela: Clia e pela The Florida Caribbean Cruise Association, em marco de 2008, em Miami.
Com as tendências do setor, conforme abordado acima, faz do Brasil, um mercado próspero para todos. Aliás é o que vem ocorrendo nas últimas três temporadas: sucesso absoluto e de grande aceitação do público brasileiro.

“Os pacotes com preços beneficiados pelo câmbio, vendidos a crédito, e as promoções oferecidas pelas companhias, mudaram a cabeça dos viajantes de São Paulo e região, que trocaram o sol e a terra firme nordestina pelo glamour e as mordomias do mar.”
Contudo, chegamos a uma etapa, onde a infra-estrutura portuária e as atividades oferecidas nos portos merecem aprimoramentos e maior atenção – exigências das companhias de cruzeiro, em atendimento a seu público. Tal comportamento ou pressão, por assim dizer, é normal nesse processo de amadurecimento do mercado, já visto e vivenciado, por exemplo, por diversas ilhas do pioneiro e consagrado destino Caribe.
Há portos e locais com tremenda abundância de beleza natural, e a existencia de infra-estrutura faz-se necessária.
No entanto, as dificuldades avulsas do Caribe sempre surgem, mesmo localizado próximo ao principal emissor de cruzeiristas do mundo, os Estados Unidos. Seus maiores desafios são as barreiras físicas, o idioma e não ter participação financeira sobre as vendas dos cruzeiros, já que todos são comercializados por agências, companhias e consumidores norte-americanos. Em outras palavras, o dinheiro não fica no local visitado.
Comparando o Brasil com o Caribe nesse aspecto, pode-se dizer que boa parte da receita gerada pelo movimento dos cruzeiros em nossa costa fica “em casa”. Isso pelo simples fato de as agências e os passageiros serem brasileiros, resultando em um aquecimento extremamente significativo da econômica interna.
Entra ano e sai ano, no Caribe, a competição entre os portos por escalas de navios é assídua. Na maioria das vezes, pela falta de planejamento, esses portos ficam a mercê das companhias, onde píers são construídos e as escalas não são realizadas, resultando em investimentos desnecessários e sem retorno.
Portos tradicionais e consagrados como Belize e Ilhas Caymans, por exemplo, que recebem de 10 a 12 navios por dia, não contam com píers e não têm planos para construir. Alguns caribenhos justificam essa “falta” com argumentos de que as leis ambientais os impedem. Nem por isso, implementar um píer comportaria tantos navios. Mesmo assim, os turistas não param de visitá-los e as companhias de atracar por lá.
O que mais atrai nessas duas localidades é a organização das atividades, porque ambos contam com as melhores excursões e passeios do Caribe. Isso, sim, faz a diferença de um destino: estar preparado para receber o turista, o que é bom para as companhias, os portos e os passageiros. Construir píers para ser utilizado por apenas quatro ou cinco meses, duração de uma temporada no Brasil, é para se pensar bem.
Não colocamos os ovos na mesma cesta.
Como busca de recursos financeiros e arriscando para perder menos, países no Caribe constroem portos em parceria com as próprias companhias de cruzeiros, como, por exemplo, uma das instalações de Cozumel, construída pela Carnival(foto ao lado).
A infra-estrutura, sim, deve ser exigida e implementada com terminais de passageiros nos portos de embarque e desembarque, onde iniciam-se os cruzeiros. Hoje, no Brasil, existem dez: Fortaleza (CE); Ilhéus (BA); Itajaí (SC); Maceió (AL); Manaus (AM); Natal (RN); Recife (PE); Rio de Janeiro (RJ); Salvador (BA); e Santos (SP).

Os hotéis, com perdas significativas em função dos cruzeiros, em primeira instância, oferecem-se como opção para servir de trânsito nos portos de embarque, disponibilizando o chamado “passe-diário” a tripulantes e/ou passageiros, para desfrutarem das piscinas, saunas, restaurantes, bares, internets e telefones de suas instalações. Há de se lembrar, também, que as companhias abrem as portas para o retorno dos cruzeiristas nas suas próximas férias em terra. Em outras palavras: traz hóspedes para os hotéis.
No primeiro momento, só quem não ganha com os cruzeiros são os hotéis, mas quando as pessoas passam um dia na cidade e gostam, acabam voltando para ficar mais tempo, e os hotéis acabam ganhando. Virgínio Loureiro (secretário de Turismo de Maceió)
Enquanto nos EUA o mercado cresce em torno de 10% ao ano, no Brasil, a média varia de 35% a 40% . Com o sucesso da temporada de 2007 e 2008, a previsão para a próxima temporada é de dois navios a mais, totalizando 19.
Veja abaixo um resumo da próxima temporada:
- MSC – continua com os três mesmos navios e somará em sua frota o MSC Música, lançado em 2006, com capacidade para 3.100 pessoas;
- Costa – continua apenas com o Costa Mágica, e substituirá os dois navios da temporada passada por outros dois, do mesmo ano de fabricação, com modesto incremento da capacidade de 229 passageiros;
- Sun & Sea – substituirá o Island Star e o Celebrity Infinity, pelo Radiance of the Seas e pelo Mariner of the Seas, este como o Infinity, apenas passará pelo Brasil. O incremento da capacidade é de 625 passageiros. Os navios são mais novos;
- CVC – substituirá o Grand Voyager e o Sky Wonder pelo Sovereing of the Seas, pelo Empress of the Seas e pelo Grand Celebration. O incremento da capacidade é de 4.328 passageiros.
Incremento da capacidade total: 8.282 passageiros.
O não crescimento dos cruzeiros somente ocorrerá se acontecer dos mares secarem.
Richard Sasso (presidente da MSC Cruises)
CENÁRIO
· O movimento de passageiros no porto de Maceió cresceu 45%. Para o secretário de Turismo, Virgínio Loureiro, “os cruzeiros marítimos são muito importantes para movimentar a economia local, dinamizando o turismo e o comércio, desde os restaurantes até as ‘tapioqueiras’”.
· Para a CVC, os mineiros estão descobrindo os cruzeiros marítimos, segundo explicou Roberto Vertemati, gerente Regional de Vendas da operadora.
· Ampliação de Portimão, na rota dos grandes cruzeiros.
· Os Cruzeiros marítimos já representam 15% das vendas da CVC. A empresa transportou no verão cerca de 130 mil passageiros em cinco navios fretados. Em 2009 serão seis.
TREINAMENTO
A Princess faz o maior investimento já realizado por uma companhia de cruzeiros internacional na Austrália, com o Dawn Princess realizando cruzeiros por todo ano no país dos “Aussies”. E para garantir tal sucesso, o próximo investimento realizado será na área de treinamento de agentes de viagem, que apenas na última temporada faturaram 33 milhões de dólares com a Carnival Australia, para melhor conhecimento do produto.
No Brasil, esforços como este não se tem notícia, contudo a Avistur e a Associação de Cruzeiros Marítimos (Abav-ES) promovem cursos, visando atualizar os conhecimentos dos profissionais que atuam na área das agências de viagens, graças à crescente procura do mercado.
Os curso geralmente abordam o processo de afirmação e crescimento dos cruzeiros marítimos, com noções sobre hospedagem e áreas sociais dos navios, gastronomia e procedimentos de embarque e desembarque, além de como oferecer a melhor estratégia de comercialização, eliminando qualquer dúvida dos clientes.
TENDÊNCIAS
· A Associação Brasileira das Operadoras de Turismo (Braztoa) avalia que as vendas de roteiros marítimos da temporada 2008 vão fechar com um crescimento de 35% em relação a igual período do ano passado.
· Lounges especiais e restaurantes exclusivos estão surgindo a bordo. A Cunard Line tem seus Queen e Princess Grills com acesso especial. A NCL tem a Villas, com piscina e pátio privativos. A MSC estará oferecendo um clube privado, “Yacht Club”, nos próximos navios. A Carnival já implantou no Carnival Inspiration áreas de interesses diferentes, como por exemplo nos decks ao ar livre: o primeiro com muita música, o segundo com escorregadores para a criançada, e, por último, uma área silenciosa para quem gosta de tomar um solzinho acompanhado de uma boa leitura. A Holland America planeja implementar “cabanas” nos decks da Eurodam, com lançamento previsto para Julho. “Isso irá aconter em alguns navios” disse o CEO da Holland America, Stein Kruse.
· A Royal Caribbean, a Carnival e a NCL oferecem nesse verão europeu, suas embarcações mais novas, aproveitando-se da aceitação do público e correndo atrás de euros;
· A Carnival lança em julho sua mais nova e maior embarcação, o Carnival Splendor, que passará pelo Brasil, rumo a Los Angeles, substituindo o Carnival Pride, que faz cruzeiros de sete dias pela riviera mexicana;
· A Costa, Celebrity e Royal Caribbean apostam mais no potencial do mercado sul-americano.